Projeto gerenciado pela Funarbe obtém patente internacional de vacina

A primeira vacina 100% brasileira contra a circovirose suína é desenvolvida, após mais de 15 anos de trabalho, por pesquisadores da Universidade Federal de Viçosa.

 

Pesquisadores da Universidade Federal de Viçosa desenvolvem vacina contra vírus causador da circovirose suína, doença que ataca o sistema imunológico dos suínos, facilitando o contágio do animal com outras enfermidades. Com o desenvolvimento dos estudos realizados e posterior comercialização da vacina, eles esperam inibir o avanço e disseminação da doença entre os suínos.

 

A equipe responsável pela pesquisa é coordenada pelos professores Márcia Rogéria de Almeida Lamêgo, do Laboratório de Infectologia Molecular Animal (Bioagro e Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular) e Abelardo Silva Júnior, do Laboratório de Virologia Animal (Departamento de Veterinária). Confira abaixo a entrevista com a professora a respeito da pesquisa e da vacina desenvolvida.

 

Quais são as formas de transmissão da circovirose suína?

A via de transmissão principal é a oro-nasal, mas o PCV2 (circovirus suíno tipo 2) possui uma elevada resistência no ambiente e é possível inclusive a transmissão aerógena. A transmissão da doença pode ser feita também por animais reprodutores que mantém a infecção e a transmitem à descendência habitualmente por via horizontal durante a lactação.

Quais são os malefícios causados pelo PCV2?

O vírus ataca granjas de todo o mundo, em especial, suínos após o desmame, causando definhamento dos leitões. Esse é um dos malefícios ocasionado pela doença, que tem impacto direto no crescimento do animal. Quando o suíno contrai a circovirose, ele desenvolve uma síndrome, que vem acompanhada de um conjunto de enfermidades, como infecção respiratória, alteração do sistema imune, pneumonia, nefropatia, entre outros.

 

Qual foi o método utilizado na pesquisa?

Inicialmente, isolamos e sequenciamos o DNA de um genótipo viral patogênico (PCV2) encontrado nas granjas brasileiras e de outros países. Para chegarmos ao produto final da vacina, a proteína do capsídeo viral foi expressa em sistema procarioto por engenharia genética e purificada por diferentes métodos. Obtivemos as partículas semelhantes a vírus (VLPs) do PCV2 como antígeno vacinal, que foram testadas nas provas de campo, em camundongos e suínos naturalmente infectados.

 

A vacina desenvolvida possui vantagens frente às importadas?

Sim. Além do benefício econômico, a vacina desenvolvida possui eficiência superior à das vacinas importadas disponíveis no mercado brasileiro. Um mérito da pesquisa foi a utilização de uma cepa genuinamente brasileira, que teve a primeira sequência do genoma viral da América Latina depositada e disponibilizada no GenBanke, um banco de dados de sequências genéticas de seres vivos e de aminoácidos do Centro Nacional de Informação Biotecnológica, dos Estados Unidos. Um diferencial em relação às outras vacinas foi que a cepa utilizada no nosso candidato vacinal pertence ao genótipo PCV2b, mais prevalente e mais patogênico, enquanto todas as vacinas disponíveis no mercado estão baseadas no genótipo PCV2a. Além disso, desenvolvemos um kit de diagnóstico, que permite quantificar a concentração do antígeno presente em cada lote, possibilitando ao suinocultor comprar a vacina com a eficiência assegurada.

 

Como foi o processo de patenteamento da vacina?

Em 2013, a patente foi depositada no Brasil e, nos anos subsequentes, foram realizados os depósitos no Uruguai, Argentina, EUA, Colômbia, China, México, Rússia e Comunidade Europeia.  Em 2017, a patente da vacina foi concedida nos Estados Unidos e na Colômbia. Foi a segunda patente internacional conquistada pela vacina, sendo a primeira da UFV na Colômbia e a segunda nos Estados Unidos.

 

Qual a previsão da vacina chegar ao mercado?

Atualmente, a pesquisa encontra-se na fase de atender às exigências do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) e a previsão é que a vacina chegue ao mercado até meados de 2019.  Como a tecnologia foi transferida da UFV/FAPEMIG/FUNARBE para a empresa Ourofino Saúde Animal Ltda., é de sua responsabilidade o escalonamento da vacina, o cumprimento de todas as exigências do MAPA e sua exploração comercial.

 

Como foi a relação com a Funarbe e da Comissão Permanente de Propriedade Intelectual (CPPI) durante o desenvolvimento do estudo?

Ambas tiveram papel fundamental para alcançarmos o resultado que tivemos. Ter a Funarbe como gestora dos projetos ao longo dos 15 anos de estudo, a maioria deles financiados pela FAPEMIG e o convênio livre da Ourofino Saúde Animal – Vacina Circovírus nos permitiu dedicar exclusivamente à pesquisa. Já a CPPI teve participação ativa na obtenção da concessão da patente nos Estados Unidos e na Colômbia, auxiliando na elaboração da documentação necessária para os depósitos da patente nos nove países e demais trâmites e negociações do licenciamento da tecnologia junto à empresa Ourofino Saúde Animal Ltda.

 

A professora Márcia Rogéria informou que a pesquisa foi resultado do trabalho de doutorandos, mestrandos e estudantes de iniciação científica (bolsista e, ou, voluntários) e destaca a importância de todos os envolvidos que, segundo ela, foram essenciais nas etapas do estudo e são considerados inventores da patente.

“Fizemos questão de envolver todos os alunos na patente, pois trata-se de uma vitória coletiva. Cada um foi fundamental para que obtivéssemos o resultado que tivemos, não importa se foi aluno da pós-graduação ou bolsista de iniciação científica, todos tiveram participação e foram fundamentais para o sucesso da vacina”, comenta a professora.

Como Fundação de apoio à pesquisa, a Funarbe se orgulha em fazer parte de mais um projeto de grande influência nacional e internacional, oferecendo suporte por meio do gerenciamento de recursos.

 

Foto: Daniel Sotto Maior